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O Mundo é o Palco, Mas o Berço é Capixaba: A Trajetória da Artista de Teatro Thais Fernandes

Da infância humilde na Grande Vitória aos palcos de Nova York, atriz relembra o início na FAFI, os desafios da imigração e o orgulho de levar a identidade capixaba para o circuito cultural americano.

09/06/2026 às 08h26
Por: Alana Rosa Fonte: Conectshow Notícias
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O Mundo é o Palco, Mas o Berço é Capixaba: A Trajetória da Artista de Teatro Thais Fernandes

Há um fenômeno muito bonito e silencioso que acontece nas terras capixabas. O Espírito Santo é um celeiro discreto de mentes criativas, mas a história de quem decide cruzar o oceano para viver da arte carrega um peso poético diferente: o peso do pertencimento na bagagem.

Acompanhar os passos de Thais Fernandes em Nova York é compreender que os nossos artistas, quando ganham o mundo, nunca deixam suas raízes para trás. Eles as expandem. Thais carrega na pele aquela formação raiz, e quem é da Grande Vitória conhece bem a escola de teatro, dança e música da FAFI. Foi ali, aos 12 anos, que o teatro transformou o seu destino. A FAFI não é apenas um prédio histórico no centro da capital, é um útero artístico.

Em um bate-papo franco sobre os desafios de levar a nossa identidade para palcos onde o mundo inteiro está assistindo, Thais relembrou esse começo quase acidental, a travessia do Atlântico e a complexidade de se reinventar em outra língua.

Alana: Thais, a sua história com o teatro começa em um dos maiores patrimônios culturais de Vitória. Como a FAFI entrou na sua vida?

Thais Fernandes: Eu comecei na FAFI de forma bem curiosa. Passava próximo ao prédio com minha amiga Samara quando vimos várias crianças realizando uma atividade no pátio da escola e ficamos curiosas. Descobrimos que se tratava de uma escola de teatro. Costumo dizer que comecei a fazer teatro sem saber direito o que era, pois eu nunca tinha sequer assistido a uma peça na vida.

Alana: E dessa descoberta despretensiosa, você foi parar no prestigiado Stella Adler Studio of Acting, em Nova York. Como foi levar o sotaque capixaba para o rigor do teatro americano, especialmente vindo de uma realidade sem tantos recursos?

Thais: Quando me mudei para Nova York, eu não falava inglês. Em meio ao processo de aprender uma segunda língua, eu acreditava que manter o teatro presente na minha vida estando fora do Brasil seria impossível. Venho de uma realidade humilde no Espírito Santo, fui estudante de escola pública e tinha poucos recursos financeiros, então não tive oportunidades de me aperfeiçoar em uma língua estrangeira antes de chegar aqui. Querer atuar em inglês, com tão pouco tempo de estudo, era desafiador. Mas tive coragem. Em dois anos aprendi a me comunicar e entrei para a escola. Hoje me sinto mais confortável e venho realizando vários trabalhos.

Alana: A sua estreia nos palcos nova-iorquinos em língua inglesa foi na peça "When the Rain Stops Falling" (dirigida por Joe Goscinski), interpretando a Gabrielle York — uma mulher marcada por perdas e pela necessidade de se adaptar para sobreviver. De certa forma, a personagem conversava com a sua própria jornada?

Thais: Com certeza. A trajetória dela, em alguns aspectos, se aproxima muito da vida dos imigrantes. Viver de arte em outra língua exige mais do que talento; exige a resiliência de se reconstruir diariamente, de testar limites fora da zona de conforto.

                 Sua primeira peça em língua inglesa, "When the Rain Stops Falling". (Foto: Richelle Szypulski)

Alana: De lá para cá, sua presença no circuito cultural de Nova York só cresceu. Recentemente você esteve em produções que tocam justamente em feridas sociais e de identidade, certo?

Thais: Sim. Participei da produção internacional E-LAZARUS, dirigida por Elena Sartor, uma obra que discute identidade, resistência e direitos humanos através de um elenco composto exclusivamente por artistas imigrantes de várias nacionalidades. Também dei vida à enfermeira (Nurse) na peça The Wish, dirigida por Valentina Ávila e produzida pela companhia Fruitfly, onde minha personagem tinha a responsabilidade de conectar o público ao tema central da trama. Sou muito grata por cada oportunidade, pois todas têm agregado algo crucial na minha trajetória.

O Presente e o Orgulho das Raízes

Alana: E o que o público nova-iorquino pode ver de você nos palcos atualmente?

Thais: Atualmente, integro o elenco da peça Midnight Hours, da escritora e poeta Catherine Shonack, com direção de Ciara Berardi. Estamos no Festival de peças curtas realizado pela companhia Open Hydrant Theatre Company. Na trama, interpreto uma chefe de gabinete lutando pela aprovação de uma lei que pode mudar a vida de muitas pessoas.

                                                  "Midnight Hours", com direção de Ciara Berardi.

Alana: Olhando para trás — da Escola de Teatro e Dança FAFI aos palcos contemporâneos de Nova York —, o que a Thais de hoje diria para aquela menina de Vitória?

Thais: Diria para ela ter orgulho. Minha identidade é parte essencial do que me torna única, e ela foi moldada por tudo o que vivi e aprendi no Espírito Santo. Carrego comigo as referências, os valores e a riqueza cultural da minha terra. São elas que influenciam minha maneira de enxergar o mundo e de me expressar artisticamente. Tenho muito orgulho das minhas raízes capixabas.

O Eco que Fica

De clássicos como A Casa de Bernarda Alba a produções contemporâneas americanas, a trajetória de Thais Fernandes nos Estados Unidos nos deixa um lembrete incômodo, mas extremamente necessário para os que ficam: por que ainda é preciso ir embora para que o tamanho da nossa arte seja plenamente enxergado?

Thais não deixou Vitória atrás, ela a expandiu. Ela leva a FAFI na história, o sotaque na memória e a nossa identidade capixaba para a vitrine do mundo. E nós, espectadores orgulhosos dessa expansão, só podemos aplaudir e cobrar de nós mesmos que possamos conhecer melhor nossos artistas, acompanhar suas trajetórias e apoiar os jovens talentos que enobrecem nossa cultura, nosso estado e nosso país. O palco é o mundo, mas a alma, essa sempre será capixaba.

Para acompanhar os próximos trabalhos da atriz, siga no Instagram: @thaisfernandesact

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