
Para quem acompanha os bastidores do Vaticano, a ideia de um Papa americano sempre pareceu improvável. No entanto, o nome do cardeal Robert Francis Prevost, um poliglota de 69 anos nascido em Chicago, emerge como um possível candidato capaz de angariar votos significativos. Com uma trajetória que transcende fronteiras, Prevost serviu por duas décadas no Peru, onde se tornou bispo e cidadão naturalizado, antes de liderar sua ordem religiosa internacional e, atualmente, ocupar um cargo de grande influência na Santa Sé.
Em um momento em que alas ideológicas da Igreja Católica Romana debatem entre a continuidade da agenda inclusiva do Papa Francisco e um retorno a caminhos doutrinários mais conservadores, os apoiadores do cardeal Prevost o apresentam como um "meio-termo digno" entre os "potificáveis".
O padre Michele Falcone, da Ordem de Santo Agostinho, descreve seu mentor como alguém que compartilha o compromisso de Francisco com os pobres e migrantes, buscando as pessoas onde elas estão. No ano passado, o próprio cardeal declarou ao site oficial do Vaticano que "o bispo não deve ser um pequeno príncipe sentado em seu reino", mas sim um líder humilde, próximo do povo que serve.
Indicado por Francisco em 2023 para chefiar o escritório do Vaticano responsável por nomear e administrar bispos globalmente, Prevost passou grande parte de sua vida fora dos Estados Unidos. Ordenado padre em 1982, obteve doutorado em direito canônico em Roma e atuou no Peru como missionário, pároco, professor e bispo. Sua experiência como líder dos agostinianos o levou a visitar ordens em todo o mundo, tornando-o fluente em espanhol e italiano.
"O cardeal entende que o centro da Igreja Católica Romana não está nos EUA ou no Atlântico Norte", observa Raúl E. Zegarra, professor de estudos teológicos católicos em Harvard.
Descrito como reservado e discreto, Prevost teria um estilo diferente do carismático Papa Francisco. Enquanto Francisco atraía multidões e demonstrava grande proximidade física com os fiéis, Prevost tende a ser mais contido. "Ele não comete excessos", afirma o padre Falcone, indicando uma abordagem mais formal.
Apesar de seu estilo mais reservado, apoiadores de Prevost esperam que ele continue o processo consultivo iniciado por Francisco, que busca envolver leigos nas discussões com bispos. "Eu sei que Bob acredita que todos têm o direito e o dever de se expressar na Igreja", disse o padre Mark Francis, ex-colega de classe do cardeal.
Contudo, em relação a questões LGBTQIA+, Prevost já expressou visões menos acolhedoras do que Francisco. Em um discurso de 2012, lamentou a influência da mídia ocidental e da cultura popular na promoção de "simpatia por crenças e práticas que estão em desacordo com o evangelho", citando o "estilo de vida homossexual" e "famílias alternativas". Como bispo em Chiclayo, no Peru, também se opôs à inclusão de ensinamentos sobre gênero nas escolas.
Apesar de ter sido elogiado por seu apoio a imigrantes venezuelanos e visitas a comunidades remotas no Peru, Prevost também enfrentou críticas em relação à sua condução de casos de padres acusados de abuso sexual.
Comparado a Francisco, a linguagem de Prevost é considerada "mais serena", segundo o padre Alejandro Moral Antón, seu sucessor como líder dos agostinianos. Enquanto Francisco tende a expressar seus pensamentos de forma imediata, Prevost "se contém um pouco", acrescentou Antón.

Mín. 17° Máx. 19°




