
Aceitei o desafio de escrever esta coluna e estrear justamente no dia do meu aniversário, 11 de maio. Nasci em 1968, um ano em que o mundo fervilhava lá fora.
Enquanto eu chegava, a França parava em meio a protestos estudantis que mudariam para sempre os costumes ocidentais. Um mês antes, o mundo chorava o assassinato de Martin Luther King Jr., o homem que ensinou ao planeta o peso da luta pelos direitos humanos. Enquanto eu tentava meus primeiros passos, astronautas cruzavam a fronteira do espaço, olhavam a Terra de longe e mostravam que a gravidade já não era o limite.
Cresci com essa promessa silenciosa de que o tempo e a atmosfera podiam ser superados.
Minha juventude foi embalada pelos anos 80. Vi pela televisão o movimento pelas Diretas Já, o fim da Ditadura e a revisão da Constituição de 1988, que nos garantiu direitos mais humanizados. Vivi a era do Plano Cruzado e vibrei com as manhãs de domingo de Ayrton Senna.
Dentro de casa, porém, o tempo ainda era lento. Era marcado pelo tique-taque do relógio de parede e pelo cheiro de papel das revistas Manchete que meu pai assinava. Naquela época, a música vinha do disco de vinil tocando na vitrola ou do rádio de pilha na janela. Tínhamos a paciência de esperar uma foto ser revelada.
Eu vi os computadores deixarem de ser salas imensas para caberem dentro da minha bolsa. Vi a informação deixar de ser privilégio das bibliotecas para se tornar um fluxo constante na palma da mão.
Confesso que, no início, a tecnologia parecia uma vilã silenciosa. Havia uma segurança romântica na caneta deslizando no papel ou no barulho da máquina de escrever. O cursor piscante do novo século parecia impaciente, como um coração eletrônico exigindo uma velocidade que eu ainda não tinha. As redes sociais pareciam muros altos, com uma língua que eu ainda estava aprendendo a soletrar.
Mas não me intimidei.
Percebi que, para manter minha jornada viva e pulsante, eu precisava desse aliado. O que era receio virou parceria. Transferi minha mente analógica para o digital e entendi que a tecnologia não veio para me substituir, mas para dar voz a uma trajetória que nenhum algoritmo seria capaz de criar sozinho.
Cresci em um mundo que muitas vezes tentou me silenciar, atravessando as marcas de uma sociedade rígida e machista. Mas o tempo, esse mestre implacável, trouxe a virada. As cartas deram lugar aos e-mails; os orelhões de ficha foram substituídos por telas de vidro que brilham.
Hoje, não sou apenas espectadora. Uso as redes para narrar minhas vivências com inteligência emocional. Não busco números ou seguidores; não desejo influenciar, mas sim ser eu mesma, com liberdade, originalidade e bom senso.
Sou de uma geração que carrega a sabedoria de quem soube viver sem internet, mas domina o presente com a curiosidade de quem não tem medo do futuro.
Entre o analógico e o algoritmo, escolhi ser fonte. Estou escrevendo minha história no século XXI com o toque na tela, transformando superação em narrativa e o online em poesia.
Sou uma mulher do século XX desfrutando da fábula da modernidade que os smartphones propiciam.
Viva o novo século e suas ferramentas, capazes de nos conectar — desde que tenhamos disponível nossa essência e humanidade para respeitar este lugar onde todos, democraticamente, podem ser iguais, mesmo sendo diferentes.
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