Servir ao Exército é uma experiência comum para muitos brasileiros, mas a história de Jhoe Freitas foge do habitual. Nascido em Guriri, distrito de São Mateus, no Noroeste do Espírito Santo, ele trocou o Brasil pelos Estados Unidos em 2016, atravessando a fronteira pelo México com a esposa e os dois filhos em busca de uma vida melhor. Hoje, legalizado e estabilizado em Massachusetts, Jhoe não só conquistou a casa própria como também ingressou no Exército Americano, onde está prestes a se tornar sargento. Em entrevista à Rádio CBN Vitória, ele compartilhou os desafios e as conquistas dessa trajetória.
Aos 34 anos, Jhoe deixou para trás uma rotina estável no Brasil, onde trabalhou como agente penitenciário e na Assembleia Legislativa do Espírito Santo. A decisão de emigrar veio após duas tentativas frustradas de obter um visto. "Peguei minha família e atravessei pelo México. Foi tranquilo, mas não incentivo ninguém a fazer isso, porque o México não é fácil", conta. A travessia, que incluiu uma passagem de quatro dias em Cancún, terminou com a chegada direta a Massachusetts, onde amigos e familiares o acolheram.
Os primeiros anos como imigrante foram de luta. Jhoe e a esposa dividiam o tempo entre cuidar dos filhos e trabalhar em empregos exigentes para pagar as contas. "No primeiro ano, eu morava com uma amiga da família e trabalhava de dia na carpintaria e de noite limpando mercados, das 23h às 3h. As crianças ficavam com a babá, porque aqui ninguém pode ficar sem trabalhar", relata. A rotina exaustiva deu frutos: em 2020, ele comprou uma casa, e em 2022, conseguiu a legalização e uma vaga na Guarda Nacional Americana.
Entrar no Exército Americano como imigrante não foi simples. O processo envolveu checagem de antecedentes no Brasil e nos EUA, uma prova com cerca de 170 questões, exames médicos e o juramento à bandeira. Após a aprovação, Jhoe passou pelo Basic Training, um curso de dois meses e meio que transforma civis em militares. "Você aprende a atirar, sobreviver na mata e faz caminhadas longas com mochila e fuzil, de até 24 quilômetros. É para te preparar para uma guerra, se necessário", explica. Hoje, ele atua na área de engenharia, operando máquinas pesadas, e cumpre um contrato de seis anos, com um salário que complementa sua renda como dono de uma empresa de paisagismo.
Apesar das conquistas, Jhoe não esconde as dificuldades emocionais. "Ficar cinco meses em treinamento, longe da minha filha de 5 anos, pesa no coração", admite. Ainda assim, ele destaca as vantagens de viver nos EUA: "A saúde, a segurança e a educação são excepcionais. Você paga imposto e vê o retorno". Do Brasil, porém, ele sente falta do calor humano. "Aqui ninguém visita sem agendar. Sinto saudade da receptividade e da família", reflete.
A história de Jhoe Freitas é um exemplo de resiliência e adaptação. Do litoral capixaba às fileiras do Exército Americano, ele construiu uma nova vida sem esquecer suas raízes – um capixaba que, com coragem, mudou seu destino.