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Como a vitória de Trump afeta o Brasil?

Republicano foi apontado vencedor das eleições desta terça-feira (5) nos Estados Unidos. O g1 conversou com Tanguy Baghdadi, professor de relações internacionais e fundador do podcast Petit Journal, e com Hussein Kalout, cientista político e ex-secretário de Ações Estratégicas do governo de Michel Temer.

06/11/2024 às 10h06 Atualizada em 06/11/2024 às 10h14
Por: suporte Fonte: G1
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Proteção à democracia, defesa do meio ambiente, relação com a China e posicionamento sobre as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio são alguns dos temas que podem impactar a relação Brasil-Estados Unidos com a vitória de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos.

O candidato republicano venceu as eleições presidenciais ao garantir votos suficientes para um novo mandato como presidente dos Estados Unidos, segundo projeção da Associated Press desta quarta-feira (6).

Para analisar as perspectivas para as relações diplomáticas entre os dois países, que, neste ano, completaram 200 anos, o g1 conversou com Tanguy Baghdadi, professor de relações internacionais e fundador do podcast Petit Journal, e com Hussein Kalout, cientista político e ex-secretário de Ações Estratégicas do governo de Michel Temer.

Levando em consideração o último mandato de Donald Trump, Tanguy Baghdadi entende que o estilo de fazer política externa do ex-presidente americano é o de se aproximar de países e líderes que "aceitem sua liderança", mesmo que não sejam da mesma ala política.

 

"Não há uma garantia de que a relação seria ruim, até porque, o Lula também, em diversos momentos, já buscou a aproximação com líderes que não eram exatamente de esquerda. Então, há uma certa facilidade dos dois em promover esse diálogo", analisa.

 

Para Baghdadi, a comunicação entre o atual presidente Lula e Trump seria de uma forma mais protocolar, mantendo acordos existentes entre os dois países, o que ele descreve como "uma certa manutenção de um relacionamento bilateral respeitoso". O professor prevê ainda que, inicialmente, a relação seja de certa "desconfiança" e "frieza".

Apoio político

 

Tanto Tanguy Baghdadi quanto Husseim Kalout entendem que a próxima eleição presidencial no Brasil pode ser desafiadora para uma eventual chapa petista, considerando que Trump apoiou o então presidente Jair Bolsonaro em 2022 — ambos falam com o mesmo eleitorado de direita e têm discursos parecidos, diz Baghdadi.

 

"Se, em uma eleição futura no Brasil, nós tivermos questionamentos no processo eleitoral e uma inflexão na nossa ordem democrática, o comportamento do Trump não será igual ao comportamento do Biden ou da Kamala. Ele vai tomar um lado, né? E, provavelmente, será o lado, digamos, do bolsonarismo", comenta Kalout.

 

Além disso, Trump e Bolsonaro carregam outro ponto em comum: ambos são investigados pela participação em uma tentativa de golpe contra a democracia em seus respectivos países.

Em 6 de janeiro de 2021, milhares de apoiadores do republicano invadiram o Capitólio em Washington, sede do Legislativo americano, na tentativa de impedir a realização da sessão que formalizaria a vitória de Joe Biden em 2020.

Dois anos depois, em 8 de janeiro de 2023, bolsonaristas invadiram a sede dos Três Poderes com o objetivo de tentar dar um golpe de estado contra o governo recém-eleito de Lula.

Visões opostas: meio ambiente, China e Venezuela

 

Caso Donald Trump volte a presidir os EUA, o Brasil pode ter que lidar com uma mudança drástica em alguns segmentos, avaliam os especialistas. Apesar de o eixo comercial de investimentos ser mantido, o que diz respeito ao meio ambiente pode colapsar, entende Kalout.

O ex-secretário de Ações Estratégicas do governo Temer também acredita que o Brasil pode ser "empurrado a buscar um alinhamento quase que automático com a China, o que seria um fato inédito na política externa brasileira".

 
O governo Biden tem tido prudência para lidar com a rivalidade entre Estados Unidos e China, ele sabe que pode ter consequências graves. O Trump é muito mais agressivo. (...) Isso tende a ter impactos diretos nas escolhas do Brasil entre China e Estados Unidos.
 
— Hussein Kalout, cientista político

Outro ponto sensível nesta relação seria a Venezuela. Husseim Kalout explica que, por mais que o governo brasileiro cobre as atas das eleições venezuelanas de 2024 e ainda não tenha reconhecido o resultado do pleito, Trump, por sua vez, é muito mais enfático que Joe Biden e Kamala Harris ao criticar o governo de Nicolás Maduro.

Posicionamento internacional

 

Husseim Kalout ressalta que Brasil e Estados Unidos são considerados países parceiros, mas não aliados.

Isso porque, embora os EUA sejam o segundo maior parceiro comercial do Brasil, no entendimento americano, são aliadas as nações que se apoiam militarmente — o que não é o caso, explica o cientista político.

Os dois países têm perfis muito diferentes no que diz respeito à política externa, comenta Tanguy. Com isso, posicionamentos quanto à guerra na Ucrânia e em Israel e outros países do Oriente Médio podem ser bastante distintos. A postura do Brasil, segundo o professor, é de maior proximidade com países parecidos com o contexto brasileiro.

 

"Eu não espero que nenhum dos dois governos, seja um governo de Trump, seja um governo da Kamala, vá ter o Brasil como grande prioridade. Eu acho que atualmente é uma relação de distância e ela vai continuar sendo assim", conclui Tanguy Baghdadi.
 
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